• "O crescente ímpeto do jihadismo holandês mostra uma ameaça sem precedentes à ordem jurídica democrática da Holanda". — Serviço de inteligência holandês, AIVD.

  • "Para os devotos impossibilitados ou relutantes em se juntarem aos combatentes na Síria ou em outro lugar, a mídia social oferece uma forma de envolvimento que permite se identificar como jihadista... sem a necessidade de lutar. Afinal de contas, o movimento também considera a "dawah", pregar o "chamamento ao Islã", uma forma de jihad". — Serviço de inteligência holandês, AIVD.

  • "A mídia social tornou possível que uma pessoa passe de maneira muito mais rápida de receptor passivo das mensagens de propaganda jihadista a simpatizante e depois a militante... Sabe-se que alguns também se envolveram em atrocidades, como decapitar prisioneiros... A mídia social mudou a estrutura e a coesão do movimento jihadista... Ele adquiriu as características de um enxame (no sentido de comportamento grupal)". — Serviço de inteligência holandês, AIVD.

  • "O movimento jihadista só poderá ser verdadeiramente destruído, de modo que evite o aparecimento de novas lideranças e estruturas, se os esforços (não uma ação isolada) forem mantidos por um período considerável". — Serviço de inteligência holandês, AIVD.

  • "Os jihadistas holandeses estão convencidos que o califado não é um sonho utópico e sim uma realidade possível de ser alcançada na Síria e em outras nações muçulmanas e, até na Holanda". — Serviço de inteligência holandês, AIVD.

O movimento jihadista interno na Holanda está passando por um crescimento repentino e explosivo, de acordo com um novo relatório publicado pelo Serviço de inteligência holandês, AIVD.

O movimento jihadista holandês não está apenas crescendo em tamanho e força, está se tornando cada vez mais aberto e sedutor, tanto online quanto nas ruas, segundo o relatório, alertando que o crescente ímpeto do jihadismo holandês apresenta uma ameaça sem precedentes à ordem jurídica democrática da Holanda.

O relatório de 58 páginas, intitulado "A Transformação do Jihadismo na Holanda: Dinâmica de Enxame e Força Nova", apresenta uma análise profunda dos diversos fatores subjacentes do "novo dinamismo" do fenômeno jihadista.

Segundo o AIVD, o movimento jihadista holandês iniciou um processo de mudanças de longo alcance no final de 2010, quando vários jihadistas foram impedidos de deixar a Holanda a fim de se juntarem aos colegas jihadistas no Paquistão e na Somália.

As interações subsequentes com autoridades policiais e jurídicas instigaram os jihadistas e demais membros de organizações afins, a melhorarem o modus operandi, que no final levou a uma maciça profissionalização interna do movimento.

Ao mesmo tempo, os jihadistas começaram a adotar métodos de propaganda desenvolvidos por colegas jihadistas na Grã-Bretanha. Inspirado pelo Islam4UK, um grupo jihadista, agora banido, fundado pelo incendiário grupo jihadista Anjem Choudary, jihadistas holandeses lançaram seus próprios movimentos ativistas, Sharia4Holland e Atrás das Grades/Dawah nas Ruas (Straat Dawah).

"Ao fazerem uso de técnicas ativistas como demonstrações e panfletagem para disseminar abertamente propagandas jihadistas sedutoras, esses grupos foram capazes de mobilizar alguns colegas muçulmanos e atrair novos recrutas", segundo o AIVD. "Em particular, muitos jovens encontraram um meio de passar para frente os ideais jihadistas por meio dessas atividades".

A mídia social adicionou mais uma dinâmica, totalmente nova ao jihadismo holandês. Além de permitir um fluxo muito mais intenso de informações e comunicações entre jihadistas, tanto interna quanto internacionalmente, a mídia social também mudou a natureza do fluxo.Antes do surgimento da mídia social, as informações fluíam verticalmente (hierarquicamente) de um para muitos. Em contrapartida, as informações nas plataformas de mídia social como o Facebook e o Twitter fluem horizontalmente (par-a-par) de muitos para muitos, expandindo assim enormemente as oportunidades para a interatividade. Segundo o AIVD:

"os jihadistas estão constantemente influenciando uns aos outros através da mídia social. Jovens que passam pela radicalização fazem um verdadeiro arrastão no Facebook em busca de pessoas afins e postam matérias jihadistas em seus perfis, influenciando dessa maneira seu próprio círculo de amigos. No Twitter, os jihadistas debatem abertamente entre si e com opositores, que frequentemente são ofendidos ou coisa pior. Eles também postam fotografias de combatentes holandeses na Síria no Facebook, que então são compartilhadas por membros das comunidades de jihadistas. Além disso, palestras são anunciadas como eventos no Facebook, de modo que participantes em potencial podem ver se pessoas que eles conhecem também estarão presentes. O mundo jihadista holandês se tornou ao mesmo tempo grande, pequeno e rápido".

A mídia social também aprimorou as iniciativas jihadistas de recrutamento:

"para os devotos impossibilitados ou relutantes em se juntarem aos combatentes na Síria ou em outro lugar, esse tipo de atividade oferece mais uma forma de envolvimento que permite se identificar como jihadista. É o jeito deles fazerem parte da "Síria", ou da "guerra santa" em geral, sem a necessidade de lutar. Afinal de contas, o movimento também considera a "dawah", pregar o "chamamento ao Islã", uma forma de jihad". Essa paridade fortalece a ligação entre aqueles que ficam em casa para praticar a dawah e aqueles vão combater.

"Não há dúvida de que a possibilidade de entrar em contato com o jihadismo, particularmente na mídia social, aumentou substancialmente nos últimos anos. "Consequentemente se tornou possível que uma pessoa passe de maneira muito mais rápida de receptor passivo das mensagens de propaganda para um simpatizante e depois a um militante... Há também o perigo real desse novo "jihadista online" continuar se radicalizando, ao ponto dele realmente cometer atos de violência ou deixar o país rumo à zona de conflito. Na realidade, é exatamente assim que muitos dos combatentes holandeses, que se encontram hoje na Síria, chegaram lá. Eles evoluíram muito rapidamente de seguidores em casa para jihadistas na frente de batalha. O AIVD constatou que uma grande proporção deles foi treinada na Síria no manuseio de armas e tomou parte em combates de verdade. Sabe-se que alguns também se envolveram em atrocidades, como decapitar prisioneiros".

O jihadista turco/holandês conhecido como Yilmaz, fotografado na Síria, é adepto do uso da mídia social para "relações públicas" dos jihadistas.

De acordo com o AIVD, a mídia social mudou a estrutura e a coesão do movimento jihadista na Holanda, a tal ponto dela ter adquirido as características de um "enxame" (no sentido de comportamento grupal)". Isso significa que ela é altamente descentralizada com inúmeros elementos, sobremaneira autônomos. Entretanto, coletivamente, eles preservam a coesão e a direção como se fossem uma entidade única.

"O enxame jihadista pode ser muito dinâmico e sujeito a mudanças, mas sabe como se movimentar como um corpo intimamente ordeiro, apesar de às vezes parecer volúvel e imprevisível", segundo o relatório, que acrescenta:

"a consequência de tudo isso é que as tentativas do governo em lidar com certos jihadistas ou estruturas, terão agora provavelmente efeitos consideravelmente menores sobre o movimento como um todo, do que teriam outrora. Particularmente quando forem casos de ações isoladas. "O movimento só poderá ser verdadeiramente destruído, de modo que evite o aparecimento de novas lideranças e estruturas, se os esforços forem mantidos por um período considerável".

Além da evolução interna e estrutural que transformou o jihadismo holandês, vários fatores contextuais, tanto internos quanto internacionais, também contribuíram para o seu crescimento.

Internamente, o salafismo holandês passou por uma importante guinada ideológica.

O salafismo é um movimento que conclama os muçulmanos a retornarem à forma do Islã praticado no princípio. Seus devotos rejeitam inúmeras ideias e costumes que se tornaram parte da tradição islâmica nos séculos subsequentes.

O salafismo de hoje possui três principais vertentes: apolítica, política e jihadista. As três buscam o mesmo objetivo maior: o estabelecimento de uma sociedade baseada unicamente nos princípios do Islã "puro".

Entretanto, diferentemente de seu congênere jihadista, as vertentes apolíticas e políticas sustentam que os principais meios de se alcançar esse objetivo deveriam ser a "dawah", ou o "chamamento ao Islã", na forma de pregação e proselitismo. Em contrapartida, o salafismo jihadista prioriza a "necessidade" da jihad violenta.

Nos últimos anos apareceu na Holanda um grupo novo de pregadores salafistas, ainda mais radicais que seus antecessores, que efetivamente turvou as fronteiras entre o jihadismo e o salafismo dawah. O AIVD explica:

"a mensagem deles é radical, não só promulga a intolerância como também suaviza as diferenças ideológicas entre o jihadismo e o salafismo dawah, em relação à legitimidade da "guerra santa". Esses pregadores não se consideram parte de um movimento separado do movimento dos jihadistas (distinção que os salafistas dawah consagrados fazem com muito mais clareza). E são eles que exercem a maior influencia nos jovens com tendências ou afinidades jihadistas.

"Devido em parte ao surgimento de pregadores operando fora da tradição não violenta consolidada, o salafismo dawah agora se tornou algo parecido com a procriação do jihadismo na Holanda".

Internacionalmente, o conflito na Síria, iniciado em março de 2011, agiu como catalisador, amplificando os efeitos de todos os demais desdobramentos para produzir um crescimento explosivo do jihadismo na Holanda.

Segundo o AIVD, o grande número de jihadistas holandeses partindo para a Síria, mostra que "esse conflito em particular reduziu significativamente as barreiras para a participação ativa na jihad". Ele acrescenta que a propaganda gerada pelo conflito está alimentando o crescimento de um "vigoroso jihadismo holandês" no qual grupos jihadistas estão "deliberadamente forçando as fronteiras do permissível segundo as leis holandesas".

O AIVD conclui com uma advertência:

"agora mesmo, relatos sobre o progresso de jihadistas na Síria quanto à criação de um califado islâmico conforme a lei da Sharia estão tendo efeitos visíveis na Holanda, já que eles estão radicalizando ainda mais aqueles que apóiam seu objetivo maior. Emanando acima de tudo de grupos como (o Estado Islâmico), relatos dessa natureza convencem aqueles que os apóiam e simpatizantes, que o califado não é um sonho utópico e sim uma realidade possível de ser alcançada na Síria e em outras nações muçulmanas e até na Holanda".

Soeren Kern é Colaborador Sênior do Gatestone Institute de Nova Iorque. Ele também é Colaborador Sênior da European Politics Grupo de Estudios Estratégicos / Strategic Studies Group de Madri. Siga-o no Facebook e no Twitter.

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