
Por mais de duas décadas que a comunidade internacional tem ouvido que os jornalistas palestinos na Faixa de Gaza estão disponibilizando ao mundo um relato sem ter sido checado sobre a sua veracidade
Uma recente entrevista com o jornalista e fotógrafo palestino Motaz Azaiza deveria fazer com que qualquer um que tenha acreditado nesses relatos, sem qualquer tipo de questionamento, ficasse com a pulga atrás da orelha.
Azaiza não é nenhum joão-ninguém. Suas imagens da Faixa de Gaza foram vistas por milhões de pessoas ao redor do mundo Seu nome consta como uma das "100 Pessoas Mais Influentes" na revista TIME, ele foi agraciado com prêmios internacionais e se tornou uma das vozes palestinas mais reconhecíveis relacionadas à guerra em Gaza.
É isso que faz com que suas recentes revelações sejam tão importantes.
Azaiza revelou detalhes sobre como os jornalistas operavam sob o controle do Hamas. Ele destacou um ambiente em que os jornalistas eram pressionados a suprimir críticas ao Hamas e, em alguns casos, a parar de filmar quando os palestinos expressavam raiva contra o grupo terrorista.
Estas não são alegações vindas de uma autoridade do governo israelense nem de uma organização pró-Israel. São admissões de um jornalista palestino que ficou famoso internacionalmente por documentar a guerra.
Azaiza se referiu a um grupo no WhatsApp chamado "SMART" que era administrado por um funcionário de mídia filiado ao Hamas, ligado à passagem da fronteira de Rafah entre a Faixa de Gaza e o Egito. Estruturas dessa natureza garantem que o conteúdo divulgado entre jornalistas esteja alinhado com a mensagem aprovada antes de chegar ao grande público.
Talvez mais revelador ainda tenha sido a sua exposição do que acontecia se os próprios palestinos criticassem o Hamas. Azaiza contou uma cena em que pessoas saindo de uma ambulância criticavam abertamente o Hamas como por exemplo ("que Deus se vingue do Hamas"), e transeuntes que nada tinham a ver com o peixe ou membros do Hamas o obrigavam a desligar a câmera.
O que isso significa?
Quando os palestinos culpavam Israel, as câmeras continuavam gravando. Quando os palestinos culpavam o Hamas, as câmeras eram desligadas.
Azaiza ressaltou que o Hamas impõe uma narrativa seletiva, reivindica vitória ou domínio sobre ações militares ao mesmo tempo em que desvia a culpa interna ou as queixas civis, tornando difícil para a mídia independente mostrar a realidade crua e nua no palco dos acontecimentos. Ele reconheceu que sair dessa estrutura expõe os jornalistas a fortes represálias, incluindo campanhas organizadas online, acusações de traição e intimidação física dentro de Gaza.
Muitas vezes o público internacional é informado que as imagens que saem da Faixa de Gaza representam um registro sem filtros do sofrimento palestino.
O relato de Azaiza, no entanto, sugere que o quadro é muito mais complicado: os jornalistas estavam operando em um ambiente político no qual criticar o Hamas poderia ter consequências.
Ele reconheceu abertamente que, no início, teve dificuldades em decidir se publicava material mostrando palestinos criticando o Hamas. Ele enfatizou que nunca tinha visto um jornalista em Gaza publicar esse tipo de material. Ele também revelou que cresceu apoiando o Hamas e que a ideologia do Hamas e a cultura da "resistência" faziam parte do ambiente de sua infância.
É uma impressionante admissão. Ela ajuda a explicar porque o mundo exterior ouviu relativamente pouco de Gaza sobre a responsabilidade do Hamas pelo sofrimento dos palestinos sob seu governo. Ela também levanta uma pergunta óbvia: quanto da história que sai de Gaza foi moldada não só pelo que os jornalistas viram, mas também pelo que acreditavam que podiam mostrar?
Não tem como jornalismo realizado debaixo de intimidação ser automaticamente tratado como jornalismo independente. A distinção é especialmente importante porque redes de notícias estrangeiras frequentemente dependem de jornalistas, fotógrafos, tradutores e 'conciliadores' sediados em Gaza para obter informações que não poderiam conseguir por conta própria.
Se os jornalistas palestinos atuam sob pressão do Hamas, as implicações vão muito além da mídia palestina. Essa influência pode alcançar a mídia internacional que utiliza o material produzido por eles.
Um correspondente ou editor estrangeiro, trabalhando em uma redação a milhares de quilômetros de Gaza, pode acreditar que está recebendo um relato confiável de um independente jornalista local. Se esse jornalista estiver sujeito a pressões do Hamas, à autocensura ou a um monitoramento organizado, a mídia estrangeira pode, sem saber, tornar-se dependente de uma narrativa que já passou por um filtro.
É assim que um grupo terrorista islamista consegue influenciar o cenário informativo internacional sem precisar controlar cada jornal ou emissora de televisão estrangeira.
As revelações de Azaiza também são significativas devido ao o que ele disse a respeito do massacre liderado pelo Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023. Ele relatou ter filmado reféns israelenses sendo espancados por multidões palestinas após terem sido sequestrados para a Faixa de Gaza. Ele ressaltou ter optado por não publicar as imagens com receio de que a divulgação permitiria Israel identificar as pessoas envolvidas.
Isso levanta uma complicômetro para a mídia internacional: quantas imagens do dia 7 de outubro e de suas consequências nunca foram publicadas porque jornalistas palestinos temiam as repercussões de mostrar o que havia acontecido? Além disso, levanta uma questão ainda mais ampla sobre a distinção entre documentar a história e proteger uma narrativa política.
O relato de Azaiza deveria, portanto, levar as mídias que utilizaram o trabalho dele, bem como o de outros jornalistas sediados em Gaza e daqueles que cobrem outros grupos terroristas e seus patrocinadores, a examinarem suas próprias práticas de reportagem. Quem forneceu as informações? Quem estava presente no momento da coleta? Que matéria não foi publicada? Os jornalistas sofreram pressões? As entrevistas foram realizadas livremente? Os palestinos tiveram permissão de criticar o Hamas diante das câmeras? E o mais importante: a mídia internacional verificou de forma independente as alegações provenientes de um território controlado por uma organização terrorista?
Essas questões são relevantes não apenas devido à guerra em Gaza, mas também pela credibilidade do próprio jornalismo. O relato de Azaiza apresenta uma possível explicação para uma das características mais marcantes da cobertura a partir de Gaza: a extraordinária visibilidade do sofrimento palestino, acompanhada de uma visibilidade comparativamente reduzida da revolta palestina contra o Hamas.
Em última análise, a entrevista de Azaiza é um alerta sobre os perigos de aceitar a narrativa de qualquer um dos lados sem um exame crítico. Ele nos revela que havia uma outra realidade por trás das câmeras, uma realidade na qual críticas ao Hamas podiam desaparecer da tela, jornalistas podiam sofrer intimidação e uma rede ligada ao Hamas podia ajudar a manejar a narrativa. Isso não deve ser descartado como um detalhe irrelevante. Deveria servir de alerta.
O analista político palestino Ahmed Fouad Alkhatib comentou o seguinte em 18 de setembro:
"Motaz Azaiza, um jornalista de Gaza evacuado durante a guerra, e alguém que já me atacou pessoalmente, está finalmente dizendo a verdade nua e crua. 'Jornalistas' sediados em Gaza, fossem eles ligados à Al Jazeera, ao Hamas, a veículos estrangeiros ou às redes sociais, praticavam sistematicamente a autocensura e ocultavam sentimentos contrários ao Hamas dentro da Faixa de Gaza. A missão deles era manter uma narrativa centrada exclusivamente em Israel e apagar qualquer dissidência, crítica ao Hamas ou diversidade de opiniões entre os palestinos. Azaiza descreve como enfrentou dificuldades com supostos 'jornalistas' que desligavam suas câmeras sempre que os habitantes de Gaza condenavam o Hamas ou tentavam responsabilizá-lo pela catástrofe que lhes foi imposta desde o 7 de outubro até a nefasta mitologia da 'resistência' que se seguiu. De modo que, para quem repete a afirmação de que Gaza teve 'mais jornalistas mortos do que na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã juntas': pensem bem sobre quem e o que vocês estão chamando de jornalista em um território totalmente controlado por uma organização extremista violenta, responsável por graves danos e repressão.
A entrevista de Azaiza comprova algo importante: o processo pelo qual as informações saíam de Gaza não era tão independente quanto muitos assumiam. A situação permanece inalterada, pois a maioria dos habitantes de Gaza continua vivendo sob o domínio do Hamas. A questão já não é só o que as câmeras mostram, mas também o que elas não mostram.
Khaled Abu Toameh é um jornalista premiado radicado em Jerusalém.
