
A Europa nossa velha conhecida há séculos, uma civilização alicerçada numa população nativa majoritária, cultura em comum, prosperidade industrial e uma certa ideia de liberdade e propriedade, parece estar destinada a desaparecer.
Isso não irá acontecer por meio de um tremendo cataclisma, e sim através de uma erosão lenta e inexorável, tornada inevitável por tendências estruturais já poderosas demais para serem revertidas a tempo de detê-las.
Ainda que, nos próximos anos vários países europeus alcem ao poder coalizões de "direita" que nunca governaram antes, mesmo assim já não poderá alterar substancialmente o destino da Europa como um todo. O problema não é só meramente político: ele é demográfico, energético, econômico e institucional. Esses quatro processos se entrelaçam e se reforçam mutuamente num mecanismo sinistro, no entanto terrivelmente eficiente.
1. O Colapso da Base Demográfica Nativa
Em 2024, a taxa de fertilidade total da União Europeia, incluindo os migrantes, se situava em 1,34 filhos por mulher, muito abaixo do nível de reposição de 2,1.
Em quase todos os países, os europeus nativos apresentam taxas de fertilidade ainda mais baixas do que isso. A população idosa cresce rapidamente, e o número de pessoas em idade ativa diminui, enquanto o número de aposentados dispara. Isso não é um mero "desafio" a ser administrado com um pouco mais de imigração, é o próprio alicerce de uma sociedade que está colapsando. Menos crianças europeias significam menos futuros contribuintes, menos inovadores, menos soldados e menos pais para criar a próxima geração. Trata-se de um lento suicídio demográfico, multifatorial e implacável.
Vejamos o caso holandês. Trata-se de um país que, em nome da preservação da natureza, proibiu construções em quase todo o seu território. Ao mesmo tempo, a Holanda abriu as portas para a imigração em massa proveniente do Terceiro Mundo. O resultado é um bangalô semi-abandonado sendo vendido por um milhão de euros. Tal custo torna a casa própria e, muitas vezes, até mesmo um aluguel digno, algo absolutamente impossível para a esmagadora maioria dos jovens holandeses nativos, embora isso seja, presumivelmente, uma condição para se ter filhos. Não se tem filhos aos 30 anos morando com os pais ou em um apartamento tipo estúdio com preço exorbitante. Na Holanda, um estudo do Instituto Interdisciplinar de Demografia dos Países Baixos atribui até um quarto da queda na taxa de natalidade a essa crise habitacional, a qual ainda é agravada pela imigração em massa e pelas restrições ambientais à construção.
2. Demografia Terceiro-Mundista em Andamento
Ao mesmo tempo, a imigração em massa da África, do Oriente Médio e do Sul da Ásia "compensa" — como a esquerda gosta de dizer, a baixa taxa de natalidade dos nativos, embora só parcialmente. Em 2023, quase 6 milhões de pessoas imigraram para a UE, 4,9 milhões delas eram provenientes de países do Terceiro Mundo.
Em 2025, aproximadamente 64 milhões de pessoas nascidas fora da UE residiam no bloco europeu, o que corresponde a cerca de 14% da população total.
Em 2024, 15% dos nato vivos na UE eram filhos de mães que não tinham cidadania de um país do bloco europeu. Esse índice ultrapassa 20% na Alemanha, na Espanha, em Portugal, em Luxemburgo e em outros países.
A assimilação dos imigrantes não ocorreu. Pelo contrário: em vários países se observam fenômenos de segregação, reivindicações de identidades paralelas (principalmente islamistas, embora não só delas) e crescentes tensões em termos culturais e de segurança. A Europa não está apenas malogrando em se "renovar": ela está se transformando, sofrendo mutações e se metamorfoseando em algo radicalmente diferente, menos europeu, menos produtivo a longo prazo e menos coeso.
O número de estupros na Europa está disparando. Onde há estatísticas sobre a criminalidade por origem nacional, todas elas mostram uma enorme super-representação de certas populações do Terceiro Mundo entre os perpetradores do estupro. Quando se importa o Terceiro Mundo, se vira o Terceiro Mundo.
3. Uma Política Energética Insana
Sob a influência da ideologia verde e de compromissos políticos europeus, como o Acordo Verde Europeu (Green Deal) e os impostos sobre a emissão de carbono, a Europa voluntariamente sabotou seus mercados de energia. O exemplo mais claro continua sendo a Alemanha com a Energiewende: o fechamento de usinas nucleares, a imposição da energia solar e eólica, a disparada nos preços da energia elétrica e a acelerada desindustrialização. Consequentemente, os preços da geração de energia permanecerão estruturalmente mais elevados na Europa do que na Ásia ou na maior parte dos Estados Unidos. Não se pode manter e custear duas redes paralelas de geração de eletricidade impunemente: uma intermitente, para agradar aos ideólogos, e uma real, para que a população tenha luz e aquecimento em suas residências.
A indústria pesada, química, siderurgia, automobilística, fabricação de vidro, perdeu a competitividade. As empresas estão transferindo suas operações ou encerrando suas atividades. Essa política não é só custosa: ela é essencialmente ideológica e autodestrutiva. Ela enfraquece a base produtiva que financia todo o sistema. Os Estados Unidos inventam, a China copia, a Europa legisla: um lugar-comum, mas terrivelmente preciso. Infelizmente, esse lugar-comum tem um preço: o relativo colapso da economia europeia num mundo em crescimento.
Na Bélgica, por exemplo, a energia elétrica é três vezes mais cara do que a média nos Estados Unidos, e o gás natural, cinco vezes mais caro. Não há nenhum setor industrial capaz de competir com sucesso nos mercados globais carregando um fardo tão pesado. A energia barata condiciona tudo. Na Europa, esquecemos disso. Agora, pode ser tarde demais.
4. Colapso Econômico
A dívida pública já não está mais sob controle em vários países de peso, entre eles a França. Os custos das pensões do governo para uma população que está envelhecendo, da saúde pública universal e dos benefícios sociais para migrantes estão disparando e continuarão a disparar nas próximas décadas. Relatórios do FMI ressaltam que as pressões orçamentárias ligadas ao envelhecimento sobrecarregarão consideravelmente as finanças públicas.
O sistema no qual os trabalhadores financiam os aposentados, que se baseia na proporção entre trabalhadores e aposentados, se torna matematicamente insustentável com o colapso da base demográfica nativa e o peso dos imigrantes que recebem pagamentos e serviços do governo, e que não contribuem para o crescimento da economia. É só somar dois mais dois. Os governos estão diante de uma escolha impossível: cortar drasticamente as pensões ou aumentar massivamente impostos e contribuições previdenciárias, confiscando, assim, mais propriedade privada. Essa é a "solução" defendida pelos assim chamados "economistas" ao melhor estilo de Thomas Piketty e é, sempre e em toda parte na história econômica, o prelúdio para o colapso coletivo. O capitalismo sem capital é uma daquelas ilusões de teorias fantasiosas francesas.
5. UE, a Trava Definitiva
A União Europeia não é um mercado comum, é um sistema biônico supranacional, não transparente e que não presta contas a ninguém, que impõe políticas fixas a todos os Estados Membros. O "mercado comum" é parcial, instável e repleto de exceções. Um empresário belga que pretenda expandir seus negócios na França terá de enfrentar mil entraves jurídicos e administrativos que farão com que ele desista, essa é, de fato, a no fundo no fundo a razão da sua existência: impedir o sucesso privado. Na realidade, o mercado europeu não é "comum"; comuns são apenas o milhão de regulamentações europeias.
As regras sobre migração, asilo, energia, clima, concorrência e auxílios estatais limitam drasticamente a margem de manobra dos Estados Membros. Até um governo nacional determinado a retomar o controle de suas fronteiras, relançar a energia nuclear ou reduzir radicalmente os gastos sociais irá esbarrar nos tratados, nas diretrizes, no Tribunal de Justiça da UE e na ameaça de sanções financeiras.
De modo que a UE atua como um mecanismo de bloqueio permanente contra as reformas radicais que são tão urgentemente necessárias.
O que as Vitórias da "direita" Irão — e não Irão — Alterar
Nos próximos anos poderemos ver vitórias nas eleições em pleitos nacionais de partidos que defendem uma postura mais rígida em relação à imigração e mais cética quanto à forçada transição energética. Essas vitórias já estão ocorrendo em diversos países. Mas o que esses partidos conseguirão realmente fazer ao se depararem com milhões de novos aposentados para sustentar, tendo como base o contínuo encolhimento da uma força de trabalho? Ou com compromissos de dívidas já assumidos? Ou, ainda, com normas europeias que vetam inúmeras soluções possíveis?
A resposta é simples: eles serão forçados, assim como os demais, a aumentar a pressão econômica sobre os que ainda trabalham e poupam, por meio de impostos de renda, patrimônio, herança, diversos impostos e aumento da inflação. Observe a tendência em relação aos ganhos de capital: primeiro, é tributado a transação na bolsa de valores, depois, os ganhos de capital realizados. Na Holanda, é tributado até mesmo ganhos de capital não realizados, isto é, ganhos que sequer existem e que podem acabar se transformando em prejuízos. Em última análise, o que resta é um contribuinte que, para salvar o que ainda dá, decide ir embora. Aí ele descobre as "alegrias" do imposto de saída ("exit tax"), que permite a sua partida, mas só depois de abocanhar uma fatia significativa de seu patrimônio.
Esses novos partidos de "direita" também podem, espera-se, acelerar a simplificação da burocracia, eliminar regulamentações desnecessárias, reduzir impostos e incentivar o crescimento econômico.
Até lá, tudo isso se resume em uma forma de confisco progressivo da propriedade privada, a única variável de ajuste que resta quando se recusa a enfrentar os tabus demográficos, migratórios e energéticos.
O Clássico Precedente Romano
A clássica civilização romana não ruiu num cataclisma estarrecedor: ela se dissolveu paulatina e invisivelmente, por meio da exaustão. A partir do Século II, os romanos nativos viram a taxa de natalidade despencar, casamentos tardios, abortos, infanticídio e celibato nas elites, não obstante as desesperadas leis natalistas de Augusto e seus sucessores.
Enquanto o coração demográfico se esvaziava, o Império Romano escancarava suas portas a povos estrangeiros: inicialmente convidados como aliados, colonos e soldados, depois instalaram tribos inteiras, com seus próprios chefes e suas próprias leis. A assimilação, parcial no começo, acabou fracassando, os recém-chegados preservaram as suas identidades, fragmentando irreversivelmente o tecido cultural e étnico da parte ocidental do Império Romano.
Concomitantemente, a máquina produtiva começou a travar: uma relativa "desindustrialização", desmatamento em massa, crescentes custos de energia, esvaziamento das vilas rurais e perda de competitividade para as periferias. Para financiar pensões, o exército e a distribuição de grãos, Roma escolheu o caminho clássico dos impérios em declínio: impostos esmagadores, desvalorização da moeda, confiscos e leis coercitivas que prendiam o homem à terra.
Assim, sem uma única decisiva grande batalha, à exceção de alguns episódios simbólicos, como no ano de 476, o Ocidente Romano não foi conquistado: ele sofreu uma lenta mutação interna, virando um mosaico de reinos romano/bárbaros. A civilização clássica morreu, substituída por outra coisa. A Alta Idade Média não foi a continuação de Roma, mas a sua sucessora sobre as ruínas. O feudalismo nada tinha de romano, exceto os escombros sobre os quais nasceu.
A Europa tal qual a conhecemos, aquela civilização da qual a América nasceu, não parece, neste momento, que conseguirá se safar. Ela está dando lugar a outra coisa: uma sociedade mais fragmentada, mais pobre, mais dependente do governo, menos livre e menos europeia. As potências vizinhas não resistirão à tentação de "cair matando em cima" para se apoderar dos espólios: o Magrebe, que já possui um exército virtual em solo europeu, a Turquia Islamista Imperialista, a Rússia, um império milenar, e, finalmente, os Estados Unidos, que não poderão permitir que as armas nucleares da França e do Reino Unido caiam nas mãos de governantes islamistas. O pesadelo de Michel Houellebecq, um presidente islamista na França, muito provavelmente se tornará realidade, é só uma questão de tempo.
Isso é menos uma previsão do que uma observação. As tendências estão aí, documentadas, e os mecanismos institucionais de bloqueio estão em vigor. O resto é puro teatro político.
A Europa do século XXI parece cada vez mais destinada a ser o que a Bélgica foi no século XIX: o campo de batalha das potências que a cercam.
Drieu Godefridi é jurista (Universidade Saint-Louis, Universidade de Louvain), filósofo (Universidade Saint-Louis, Universidade de Louvain) e Ph.D. em teoria jurídica (Paris IV-Sorbonne). Ele é empresário, CEO de um grupo europeu de ensino privado e diretor do PAN Medias Group. Ele é o autor do The Green Reich (2020).
