por Khaled Abu Toameh
9 de julho de 2026
Quase três anos após o massacre de 7 de outubro de 2023 e mais de seis meses depois do plano de paz de 20 pontos do presidente Donald J. Trump exigir a total desmilitarização da Faixa de Gaza, o Hamas anunciou que está dissolvendo o seu, de fato, órgão governamental e também está pronto para transferir a autoridade para um comitê de tecnocratas palestinos.
À primeira vista, dá a impressão que o anúncio representa uma importante concessão. Mas não é. Trata-se meramente da última tentativa do Hamas de tapear a comunidade internacional, levando-a a acreditar que o grupo está cumprindo as exigências da iniciativa de paz de Trump, ao mesmo tempo em que preserva o que é mais importante para a organização terrorista: seu poder militar.
A questão fundamental não é quem ocupa os cargos ministeriais na Faixa de Gaza. A questão fundamental é quem fica com as armas.
O próprio Hamas reconhece que seus ministérios e milhares de funcionários permanecerão em seus postos. Mais importante ainda, o Hamas afirma que continuará supervisionando a segurança e o policiamento nas áreas que ainda estão sob seu controle.
Em outras palavras, o Hamas está deixando o governo, mas não o poder. No fundo no fundo, nada mudou.
O Hamas não está desmantelando a ala militar. Não está entregando as armas. Não está dissolvendo seu aparato de segurança. Não está encerrando a estrutura de comando. Milhares de funcionários e partidários leais ao Hamas também permanecerão infiltrados nas instituições da Faixa de Gaza.
Sem essas medidas, dissolver um comitê de governo não passa de um gesto meramente cosmético.
Enquanto o Hamas mantiver as forças militares, qualquer futura administração civil na Faixa de Gaza operará sob a ameaça das armas do grupo.
Nenhum governo tecnocrático consegue funcionar de forma independente se uma organização terrorista armada permanecer sendo, de forma indubitável, a força mais poderosa no pedaço.
Gideon Sa'ar, ministro das Relações Exteriores de Israel, reconheceu imediatamente o perigo. "O truque do Hamas é simples", escreveu ele. "a aparente disposição do Hamas em abrir espaço para um governo tecnocrático visa impedir o seu próprio desarmamento."
Sa'ar alertou que o Hamas busca replicar o modelo do Hezbollah na Faixa de Gaza: uma administração civil ficaria encarregada da coleta de lixo, serviços públicos, reconstrução e pagamento de salários, enquanto o Hamas permaneceria como a dominante força militar. Ele observou que, "enquanto o Hamas mantiver as armas, qualquer governo civil operará, em toda sua plenitude, conforme as determinações do grupo".
Essa avaliação vai ao cerne da estratégia do Hamas.
O grupo terrorista está tentando replicar o modelo de "estado dentro do estado" do Hezbollah no Líbano. De acordo com esse modelo, um governo civil administra os assuntos cotidianos do país, enquanto a organização terrorista mantém seu exército independente, seu aparato de inteligência e o poder de decidir sobre questões de guerra e paz.
As consequências para o Líbano têm sido catastróficas. Embora sucessivos governos libaneses tenham governado formalmente o país, o Hezbollah permaneceu o verdadeiro poder, usando seu vasto arsenal e o apoio iraniano para dominar a vida política e arrastar repetidamente o Líbano para guerras destrutivas com Israel.
Agora o Hamas, ao que tudo indica, está seguindo exatamente a mesma fórmula na Faixa de Gaza. Quer que outra pessoa reconstrua hospitais, escolas, estradas e residências, restaure os serviços básicos e pague os salários dos funcionários públicos, enquanto o Hamas reconstrói silenciosamente seu poder de fogo, recruta combatentes, restaura a rede de túneis, fabrica foguetes e se prepara para outro massacre semelhante ao de 7 de outubro contra Israel.
Isso não é paz nem estabilidade. É simplesmente terceirizar responsabilidades civis, preservando a estrutura da jihad (guerra santa).
E também não é a primeira vez que o Hamas emprega essas táticas.
Em 2014, após assinar outro acordo de reconciliação com a facção Fatah de Mahmoud Abbas, o Hamas concordou, de forma semelhante, em entregar a administração da Faixa de Gaza a um governo de unidade palestino composto por tecnocratas. Acreditava-se, na época, que o acordo reduziria o controle do Hamas sobre Gaza. Em vez disso, o Hamas manteve o controle total sobre as suas forças militares e agências de segurança.
O governo de unidade nunca exerceu autoridade para valer. O resultado foi o que era de se esperar. O Hamas permaneceu como o principal governante da Faixa de Gaza, enquanto outros (a Autoridade Nacional Palestina e a comunidade internacional) assumiam a responsabilidade pela administração e pelos serviços públicos.
Doze anos depois, o Hamas tenta repetir exatamente a mesma fórmula. A história deveria servir de alerta. A comunidade internacional aceitou, repetidas vezes, as promessas do Hamas, acreditando nelas sem mais nem menos. Acreditou cegamente, reiteradamente, que o Hamas estava se tornando mais pragmático, mais responsável e mais interessado em governar do que em combater. Muitos formuladores de políticas e analistas políticos israelenses e ocidentais acreditavam que o Hamas buscava, primordialmente, estabilidade econômica, reconstrução e períodos de calma.
Tais suposições ruíram em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas perpetrou o massacre de judeus mais letal desde o Holocausto.
A lição deveria ter sido óbvia. O Hamas tem utilizado, repetidamente, cessar-fogos, esforços de reconstrução e iniciativas diplomáticas para fortalecer a sua estrutura militar.
O último anúncio do Hamas merece ser analisado sob a mesma ótica.
Se o Hamas realmente desejasse abrir mão do poder, por que esperar até agora? Por que não se dissolver antes que a Faixa de Gaza sofresse uma destruição catastrófica? Por que não se afastar anos atrás para poupar os palestinos dos enormes custos humanos e econômicos de mais uma guerra?
A resposta é óbvia.
O Hamas está agindo porque enfrenta uma crescente pressão internacional para cumprir o plano de paz de Trump, cuja exigência central é a completa desmilitarização da Faixa de Gaza.
Ao anunciar a dissolução de seu comitê governante, o Hamas espera criar a impressão de que está cumprindo com as suas obrigações, ao mesmo tempo em que transfere a pressão diplomática para Israel.
A mensagem que o Hamas quer que o mundo ouça é simples: "fizemos a nossa parte. Agora Israel tem que fazer a dele."
É uma inteligente estratégia de relações públicas. No entanto, não satisfaz a exigência fundamental do plano de Trump. A questão nunca foi quem ocupa os cargos governamentais. A questão é se o Hamas continuará a existir como uma organização terrorista armada.
Enquanto o Hamas continuar armado, nenhum governo civil poderá funcionar de forma independente. Enquanto o Hamas mantiver milhares de funcionários leais infiltrados nas instituições de Gaza, qualquer nova administração corre o risco de se tornar pouco mais que uma fachada por trás da qual o Hamas continuará governando nas sombras.
Ahmed Fouad Alkhatib, analista político palestino, escreveu em 6 de julho:
"As incessantes manchetes sobre o Hamas estar 'encerrando o seu governo' em Gaza e 'se preparando para abrir mão do controle' são apenas mais uma artimanha, palavras vazias disfarçadas de concessão pelo grupo terrorista, que não tem a menor intenção de abrir mão do poder nem de se desarmar. Comunicados semelhantes já ocorreram com frequência no passado."
"A renúncia do chefe do assim chamado 'Comitê de Emergência', fachada de governo do Hamas no período pós-7 de outubro, é simplesmente a remoção de um testa-de-ferro. Suas funções já foram discretamente assumidas por outro administrador 'temporário' do Hamas, enquanto todos fingem aguardar a posse do NCAG, Comitê Tecnocrata que está por vir. O Hamas já anunciou que a sua equipe administrativa e técnica continuará trabalhando até a chegada do NCAG, plenamente ciente de que o novo órgão de governo de transição carecerá de capacidade, pessoal ou infraestrutura para administrar Gaza. Esse é o plano do Hamas: reciclar o aparato atual/existente na nova administração que deverá surgir do processo de transição da Administração Trump, supervisionado pelo Conselho de Paz."
"O que estamos vendo é a implementação desajeitada de uma estratégia prevista há muito tempo: a transição do Hamas de um controle direto para um governo indireto, ao estilo do Hezbollah. É uma opção menos custosa, protege o grupo de ser responsabilizado e permite que novas figuras civis absorvam a revolta pública, enquanto o Hamas mantém o controle decisivo sobre todas as alavancas de poder relevantes na Faixa de Gaza."
"Nada disso parece um desarmamento. As Brigadas al-Qassam, do Hamas, trabalham incansavelmente para reparar as redes de túneis e recompor os estoques de munição, utilizando munições não detonadas e bombas israelenses remanescentes de dois anos de guerra. No entanto, a cobertura midiática desse acontecimento, que, na prática, não muda a realidade, já passou a retratar o Hamas como cooperativo, sensato e até construtivo; trata-se de uma mudança de narrativa que obscurece o papel do Hamas como principal obstáculo à recuperação de Gaza. Essa estratégia tem sido bem-sucedida para o grupo, não apenas junto a veículos, vozes e plataformas que historicamente adotam uma postura mais branda em relação a ele, como também em certos setores do discurso político convencional, onde alguns já tratam o fato como algo equivalente ao início do desarmamento ou ao começo da Fase II do cessar-fogo."
"O momento escolhido não é coincidência: essa iniciativa do Hamas ocorre uma semana após a reunião do Conselho da Paz em Chipre, no qual se decidiu avançar com o 'Plano B', a estratégia que defendo há muito tempo: transferir a população civil de Gaza para além da 'Linha Amarela' e privar o Hamas do acesso aos recursos e aos escudos humanos dos quais o grupo depende."
"Em última análise, a 'dissolução do governo' pelo Hamas será avaliada com base em critérios simples, como por exemplo a possibilidade dos habitantes de Gaza compartilharem postagens no Facebook sem sofrerem tortura, espancamentos ou serem arrastados para salas de interrogatório em hospitais, abusos que persistiram desde 7 de outubro até a semana passada. Enquanto essa realidade não mudar, as manchetes não passam de encenação, e o controle do Hamas sobre Gaza permanece intacto."
O objetivo principal do Hamas é a sobrevivência. O grupo compreende que bilhões de dólares em ajuda internacional para a reconstrução poderiam, em breve, chegar à Faixa de Gaza.
Um governo tecnocrata financiado por doadores estrangeiros aliviaria o Hamas do ônus financeiro de governar, permitindo, ao mesmo tempo, que o grupo terrorista se concentrasse em reconstruir a sua máquina militar.
A implementação integral do plano de paz de Trump exige o desmantelamento da estrutura militar do Hamas e a completa desmilitarização da Faixa de Gaza. Permitir que o Hamas estabeleça um "Estado dentro do Estado", nos moldes do Hezbollah, garantiria a continuidade da instabilidade e asseguraria que qualquer futura administração palestina permanecesse refém de uma organização terrorista armada.
A única solução significativa é a dissolução do próprio Hamas, e não apenas de um de seus comitês administrativos. Ela implica em desmantelar as estruturas políticas e militares, entregar todas as suas armas, dissolver o aparato de segurança, abrir mão de qualquer instrumento de coerção e deixar de existir como força política armada.
Qualquer medida aquém disso preserva as condições que deram origem ao massacre de 7 de outubro.
Tanto israelenses quanto palestinos já pagaram um preço insuportável por acreditarem repetidamente nas promessas do Hamas. Eles não podem se dar ao luxo de cometer o mesmo erro novamente. A comunidade internacional não deve se deixar enganar por mais uma encenação cuidadosamente preparada pelo Hamas.
Enquanto o Hamas não desaparecer tanto como movimento político quanto como organização terrorista, as declarações sobre a dissolução de comitês não passam de uma farsa política destinada a garantir a legitimidade internacional do grupo, liberar bilhões de dólares em ajuda e ganhar tempo para que o grupo se prepare para a próxima guerra.
Khaled Abu Toameh é um jornalista premiado radicado em Jerusalém.
