
Por anos a fio, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tem jogado um sórdido jogo duplo: ele se apresenta ao Ocidente como mediador regional e um responsável aliado da OTAN, enquanto simultaneamente transforma a Turquia em um santuário para terroristas do Hamas fora da Faixa de Gaza.
Novas revelações provenientes de investigações da segurança israelense fizeram cair por terra qualquer ilusão de que a relação da Turquia com o Hamas se limitasse a "apoio político" ou "engajamento diplomático". As evidências apontam cada vez mais para uma situação muito mais alarmante: a Turquia virou um centro operacional, logístico e financeiro de primeira ordem para a infraestrutura terrorista global do Hamas.
Não tem como países que apoiam o terrorismo, ao mesmo tempo, serem tratados como parceiros indispensáveis na luta contra o terrorismo.
Um recente relatório da emissora pública israelense KAN revelou que agentes do Hamas têm participado abertamente de exercícios de treinamento de combate em clubes de tiro por toda a Turquia.
Segundo o relatório, os membros do Hamas vêm treinando em trajes civis para evitar suspeitas, enquanto aprendem táticas com armas de fogo e técnicas avançadas de combate. Mais preocupantes ainda são os relatos de que membros do Hamas têm se matriculado em cursos profissionais de pilotagem de drones e recebido licenças oficiais turcas para pilotá-los.
O treinamento, segundo autoridades israelenses citadas no relatório, visa preparar os membros do Hamas para enviá-los para o Líbano, Jordânia e Cisjordânia, para possíveis futuros ataques contra Israel.
Isso não é apoio "simbólico" à causa palestina. É assistência militar, equivalente ao apoio que o regime iraniano vem fornecendo ao Hamas há décadas.
Drones estão entre as ferramentas mais importantes usadas pelo regime iraniano e seus grupos terroristas, incluindo o Hamas, o Hisbolá e os Houthis, na jihad (guerra santa) contra Israel. O Hamas usou drones extensivamente durante a invasão contra Israel em 7 de outubro de 2023, bem como em ataques a sistemas de vigilância e bases militares israelenses.
Ao permitir que membros do Hamas desenvolvam capacitação com drones em solo turco, Ancara está deliberadamente preparando terroristas para futuras guerras contra Israel.
A Turquia, no lugar de simplesmente hospedar membros do Hamas, está intencionalmente cultivando a próxima geração de terroristas do Hamas e garantindo que o alcance geográfico do eixo jihadista do Irã continue se expandindo.
Além disso, a Turquia emergiu como uma crucial artéria financeira para o Hamas e seus patrocinadores iranianos.
Em dezembro de 2025, as Forças de Defesa de Israel (IDF) e a agência de segurança Shin Bet expuseram o que identificaram como uma grande rede de lavagem de dinheiro dirigida pelo Irã, operando dentro da Turquia. Documentos internos do Hamas revelaram um sofisticado sistema financeiro gerenciado em grande parte por expatriados de Gaza ligados ao Hamas que se mudaram para a Turquia.
As IDF e o Shin Bet identificaram publicamente pelo menos três indivíduos envolvidos na rede de financiamento na Turquia. Tamar Hassan que supostamente trabalha diretamente sob a liderança do líder do Hamas, Khalil al-Hayya. Khalil Farwana e Farid Abu Dayir também foram citados como facilitadores-chave atuando dentro da ampla rede de casas de câmbio.
"Agentes do Hamas na Turquia canalizam fundos para fins terroristas", enfatizou o porta-voz árabe das IDF, Avichay Adraee, acrescentando: "a pergunta que não quer calar é: o que um membro da OTAN está fazendo ajudando a facilitar o terrorismo."
O crucial papel financeiro desempenhado pela Turquia é especialmente significativo porque proporciona ao Hamas acesso ao sistema financeiro internacional através do território de um Estado Membro da OTAN. Essa realidade deveria alarmar profundamente Washington e as capitais europeias.
Ideologicamente, assim como militar e financeiramente, Erdogan tem abraçado abertamente os líderes do Hamas. Ele se recusou repetidamente a designar o grupo como organização terrorista. Invertendo as bolas, defendeu veementemente o Hamas e caracterizou os seus membros como "combatentes da resistência" e guerreiros de um "grupo de libertação" que lutam para proteger as terras palestinas.
Altos funcionários do Hamas, incluindo Khaled Mashaal e o falecido Ismail Haniyeh, sempre foram recebidos na Turquia como convidados de honra. Alguns funcionários do Hamas, ao que consta, receberam passaportes turcos, autorizações de residência e liberdade de movimento.
O alinhamento de Erdogan com o Hamas parece estar enraizado na sua afinidade ideológica mais ampla com o movimento da Irmandade Muçulmana e outros grupos islamistas. Seu governo tem consistentemente apoiado grupos islamistas radicais no Egito, Líbia, Síria e outros países.
Era previsível, portanto, que o Hamas, o braço palestino da Irmandade Muçulmana, se tornasse um dos aliados ideológicos mais próximos de Ancara.
Durante anos, governos ocidentais se apegaram à ficção de que países como a Turquia e o Catar poderiam servir como mediadores neutros entre o Hamas e Israel. Essa premissa sempre foi profundamente equivocada.
Há muito tempo que o Catar funciona como principal financiador do Hamas, injetando centenas de milhões de dólares na Faixa de Gaza, além de abrigar líderes do Hamas em Doha. A Turquia, por sua vez, tem fornecido refúgio operacional, treinamento logístico e acesso a sistemas financeiros.
A contínua dependência do Ocidente em relação à Turquia e ao Catar como intermediários somente fortaleceu o Hamas e prolongou a instabilidade no Oriente Médio.
Como é que o Ocidente pode continuar considerando a Turquia e o Catar como aliados confiáveis ao mesmo tempo em que esses países insistem em apoiar grupos terroristas comprometidos com a conquista não só de Israel, mas também de outros Estados Membros da ONU, como demonstram os planos da Turquia em relação a Chipre e à Grécia?
Enquanto isso, o Catar continua tentando carcomer os Estados Unidos, ao doar, ao longo de décadas, bilhões de dólares no sentido de influenciar a educação, desde o ensino fundamental e médio até a pós-graduação, por todo os Estados Unidos. A Universidade Cornell recebeu US$10 bilhões ao longo dos anos, a Universidade Carnegie Mellon, "pouco menos de US$2 bilhões", a Universidade Texas A&M, "mais de US$1 bilhão" (o que concedeu ao Catar a propriedade integral de mais de 500 projetos de pesquisa em áreas como ciência nuclear, inteligência artificial, biotecnologia, robótica e desenvolvimento de armas), e a Universidade Georgetown, US$971 milhões. Por que o Catar e a Turquia continuam a apoiar o Hamas enquanto exigem a confiança dos Estados Unidos e do Ocidente? Por que o Ocidente continua aceitando essa duplicidade?
A Administração Trump está diante de um teste crucial. Se Washington está realmente empenhado em desmantelar a infraestrutura do Hamas e confrontar o regime iraniano, não pode continuar ignorando o compromisso da Turquia em fazer exatamente o oposto: proteger e apoiar o Hamas.
Um Estado Membro da OTAN, a Turquia, está facilitando as atividades de um grupo terrorista apoiado pelo Irã, responsável pelo assassinato em massa de civis, incluindo de muitos americanos.
Ao permitir que o Hamas e outros grupos terroristas operem livremente em seu território, a Turquia está minando a própria arquitetura de segurança com a qual a OTAN foi criada para defender.
Khaled Abu Toameh é um jornalista premiado radicado em Jerusalém.
